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quinta-feira, outubro 26, 2006

História do Sul

Para Galufi y su Michelina. Para todas las Michelinas.


HISTÓRIA DO SUL

Anoiteceu, recordo-me, era um cão pequeno e branco, numa cidade do sul, com limoeiros ainda e o frémito da sombra ao fundo dos pátios. Um cão, há muitos anos, via-o aproximar-se de longe, certamente tinha um destino, magro destino de cão, já se sabe, contudo destino. Na noite deserta, um osso na boca, ele ia à sua vida, talvez uma cadela o esperasse num daqueles vícolos que desaguavam nas trevas do porto, mas também ele me viu, não era difícil, na rua deserta só eu aguardava, e quase alvoroçado aproximou-se, parou na minha frente, deitou fora o osso, ergueu-se nas patas traseiras e os seus olhos diziam que, a partir de então, osso, cadela, destino, tudo isso era eu. Inclinei-me para uma festa, disse-lhe também da minha ternura, daquela ferida breve acabada de abrir, mas o meu destino era ainda mais precário, mal chegara não tardaria a partir, só quase o tempo de respirar a cal da sombra. Dei alguns passos, sabia que me seguia, parei, parou, voltei a caminhar, voltou a seguir-me, de novo o acariciei, ali estavam aqueles olhos molhados, eram por assim dizer os olhos de minha mãe, outra vez lhe falei, lhe pedi perdão por não poder levá-lo, por não poder ficar, viajar com amigos não era andar pelo mundo de sacola ao ombro, devia compreender. Não, ele não compreendia, não podia mesmo entender razões assim, a terra era o que havia de mais deserto, do amor não ficava senão um pequeno fio de sangue, menos ainda, a baba da lesma na relva, e de repente uma campainha retiniu, ficámos rodeados de gente, o deserto aumentou, ele continuava na minha frente, aqueles olhos onde subiam as águas mais fundas, como esquecê-los? Os amigos ali estavam, deram-se logo conta, os inteligentes, daquele enleio, deram também razões, o cãozito tinha certamente dono, via-se bem que não era vadio embora lhe faltasse raça, quisesse eu não faltariam cães, por toda a parte havia milhares bem mais bonitos, e depois, as fronteiras, tanto trabalho por um cão vulgaríssimo, como vês não entendem, nenhum deles viu nos teus olhos a raiz do orvalho, entraram no carro, fiz-lhe ainda uma festa, da janela de trás via-o no espaço que o automóvel deixara, farejava o chão inquieto, depois levantou a cabeça desorientado, não percebia como um sopro me levara, impossível amor, meu filho, passarei o resto da vida a embalar-te, as pessoas continuavam a dispersar, as últimas luzes do cinema apagavam-se, a rua escureceu, não tardaria a ficar deserta.

Eugénio de Andrade
1976